
Costuma-se dizer que a vida é uma jornada. Ao longo dos diferentes percursos que fazemos, encontramos muitas pessoas e desencontramos de tantas outras. Faz parte da vida… mas eu lhe pergunto: quando as provações surgem ao longo do caminho, quando tudo vacila, quem queremos ao nosso lado? Procuramos alguém que aja por nós, que nos leve na direção escolhida para nós… ou uma mão que não nos pressione, um ouvido que escute sem julgar, uma presença que não se imponha?
Se o que esperamos é alguém capaz de caminhar ao nosso lado, ao nosso ritmo, aceitando as etapas de aceleração, bem como os momentos de pausa, então buscamos uma relação baseada na partilha e na co-construção de saberes. No cuidado em saúde, isso significa colocar no centro das nossas práticas a noção de “acompanhamento”, tal como concebida por Maëla Paul: uma postura que lembra que o cuidado não se reduz à técnica, à intervenção ou à solução transmitida, mas que se alimenta de um encontro e de uma narrativa compartilhada.
Diante disso, podemos nos perguntar então: como construir essa relação? Em que bases podemos fundamentar nossa prática profissional para conseguir acolher a pessoa e acompanhá-la verdadeiramente?
Começar a responder a essas perguntas exige lançar um olhar aberto e disponível para a pessoa acompanhada, a fim de compreendê-la para além e apesar de sua doença ou deficiência. Isso pode parecer simples e completamente integrado à prática dos profissionais das áreas da saúde, mas inúmeras experiências mostram exatamente o contrário: depoimentos e relatos de pacientes e beneficiários que relatam a falta de escuta, empatia, compreensão e reconhecimento da pessoa em sua trajetória de vida, sem reduzi-la a seus problemas ou limitações de saúde.
Formados para carregar a queixa de quem os procura, ofertando soluções; formados para diagnosticar e intervir, corrigir, salvar, tratar, os profissionais podem se sentir impotentes ou exaustos diante do sofrimento psíquico e emocional dos pacientes, o que, consequentemente, desencadeia um sofrimento no cotidiano do trabalho a ponto de provocar um esgotamento ou uma fadiga por empatia.
Entre essas duas experiências, tão singulares, mas cheias de pontos de interseção, situa-se um processo de aquisição de competências comunicacionais, relacionais e reflexivas que favorecem a construção do acompanhamento como postura humana e profissional. Para implementar esse processo, é necessário aprender a ajustar a postura para se colocar junto com a pessoa, ao seu lado, e fundar, nessa relação delicada e intensa, um espaço narrativo onde a pessoa reencontre uma voz — e um lugar.
A expressão da sua voz, em toda a sua força, torna-se um meio de acesso às experiências vividas e uma alavanca de trabalho para estabelecer uma relação de compromisso recíproco. É aí que as abordagens narrativas — quer se trate da narrativa biográfica ou dos métodos de explicação — se revelam preciosas na formação e na prática dos profissionais de saúde. Mas porquê?
Bem, porque viver uma vida com, apesar e para além da sua doença ou deficiência é contar uma história, que pode ser marcada por momentos de confronto, luto, superação, aprendizagem, alegria, tristeza, descobertas e transformações. Através da narrativa da experiência e da explicação das aprendizagens adquiridas ao longo de uma trajetória de vida, é possível compreender a multiplicidade das realidades vividas pelos pacientes, familiares e cuidadores, considerando-os autores de seu próprio caminho.
Nesse trabalho, baseado nas abordagens narrativas, os profissionais e os pacientes ou usuários podem realmente construir uma relação de acompanhamento e torná-la rica em reflexões e aprendizados mútuos. Não se trata de alcançar um resultado pré-definido, mas apoiar a busca de sentido, a problematização da experiência e a afirmação do sujeito como protagonista da sua história. Acostumados a modelar soluções, os profissionais podem aprender, por meio das abordagens narrativas, a mobilizá-las como um meio para co-construir com a pessoa acompanhada o caminho que se deseje percorrer. Esse movimento não é apenas uma competência técnica: é uma verdadeira formação que visa cultivar a atenção, a escuta, a empatia, a construção de laços, ou seja, a capacidade de se conectar e ser tocado por uma trajetória de vida.
Se aprender a acompanhar em saúde a partir dessa perspectiva faz sentido para você, ficaremos muito contentes em seguirmos com esse diálogo.
Referências:
ALVES, Camila Aloisio, RAIMONDI, Martine Janner, et BECK-WIRTH, Geneviève. Reconnaître l’expérience vécue de la maladie : la recherche « Croiser les expériences ». Santé Publique, 2021, vol. 33, no 3, p. 327-336.
ALVES, Camila Aloisio, PROT, Bernard, PACQUOLA, Mariachiara, et al. Mobiliser les savoirs expérientiels pour la recherche et la formation des professionnels de la santé : concepts et méthodologies. Pédagogie médicale, 2020, vol. 21, no 1, p. 53-59.
PAUL, Maella. (2009). « Accompagnement », Recherche et formation [En ligne], 62 | 2009, mis en ligne le 01 septembre 2013, URL : http://journals.openedition.org/rechercheformation/435 ; DOI : https://doi.org/10.4000/rechercheformation.435
ZUCMAN, Elisabeth ; LAPEYRE, Michèle. Auprès de la personne handicapée, Une éthique de la liberté partagée. Reliance, 2007, no 3, p. 135-136.


