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Comunicação em saúde: mais que falar, é estar em relação entre mundos

Side view of general practitioner communicating with senior woman at doctor’s office.

Você já se perguntou se você se comunica bem no cotidiano, junto aos seus pares no trabalho, em família, com seus amigos? Se sua resposta foi não, fique tranquilo, essa é a realidade de grande parte da população. Já se sua resposta foi “algumas vezes”, fique tranquilo também, pois cada vez mais vemos o despertar das pessoas, das empresas e instituições para o desenvolvimento de competências em comunicação.

Mas, por que ainda é comum encontrarmos respostas negativas à pergunta que abre esse texto? Pois demoramos para compreender que se comunicar bem e com clareza não depende apenas do domínio de uma língua e seus códigos, muito menos de ter dois ouvidos, dois olhos e uma boca. Uma boa comunicação passa sim pelas formas linguísticas de uma cultura e pelo uso dos sentidos, mas ela vai além, muito além!

Comunicar-se bem é, antes de tudo, um exercício de presença. É estar inteiro diante do outro, mesmo quando não temos as palavras certas. É escutar o que é dito e também o que se cala, o que vibra no corpo, no olhar, no silêncio. Pode parecer que saber exercer a comunicação a partir dessa perspectiva demanda possuir características comportamentais que favoreçam uma comunicação mais humana e sensível. Muitos irão dizer que possuir essas características depende da bagagem que a pessoa traz e que algumas são mais sensíveis do que outras. A comunicação seria, portanto, um dom da pessoa.

Quando pensamos assim, ocultamos todo o processo de aprendizagem e de desenvolvimento de uma boa comunicação, clara, sensível e acessível. Encerramos a questão nos limites das habilidades e capacidades pessoais.

No contexto da saúde, somos formados para fazer uma boa leitura do que o paciente nos traz, decriptarmos seus sintomas, organizarmos a fala que nos é dirigida para transmitirmos um diagnóstico, propormos um tratamento, uma intervenção. Ou seja, somos formados para receber uma informação e dela reagirmos a partir do nosso arsenal de conhecimentos. Quando nos limitamos a esse exercício comunicativo, deixamos de lado toda construção de sentido, toda partilha e compreensão inscritas em cada encontro com um paciente, um familiar, um cuidador, até mesmo um colega. Comunicar-se é bem mais do que um meio de acesso à realidade de vida do outro, é o que dá vida às relações que estabelecemos.

Assim, comunicar-se de forma eficiente, clara, sensível, humana e acolhedora demanda aprendizado, aprimoramento, reflexão, expansão; é afetar e deixar-se ser afetado.

Na saúde, comunicar não é apenas transmitir informações — é compartilhar sentidos, reconhecer histórias, acolher vulnerabilidades. Cada encontro é uma tradução entre mundos: o do profissional, o do paciente, o da doença e o da vida que segue, apesar de tudo. O desenvolvimento de habilidades comunicativas passa então por dimensões técnicas, sensíveis e reflexivas.

Talvez devêssemos admitir: comunicar é bem mais difícil do que pensamos, porque requer não apenas o conhecimento e o domínio de técnicas, mas também a disposição de construir uma relação e ser atravessado pelos sentimentos que ela suscita.

Num mundo onde a inteligência artificial pode propor diagnósticos com as informações coletadas de uma anamnese com o paciente de forma muito mais rápida que o cérebro humano, desenvolver a sensibilidade de ler para além do check-list de questões a serem feitas em uma consulta torna-se uma habilidade ainda mais essencial para os profissionais de saúde.

Se no horizonte que vemos pela frente, ser humano e máquina estarão cada vez mais imbricados, caberá a nós desenvolvermos e reforçarmos nossas capacidades de seguirmos nos conectando naquilo que dá sentido à nossa humanidade.

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