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Conscientização da saúde mental na sociedade do cansaço: diálogo possível?

Um novo ano chegou e com ele vem o entusiasmo dos novos planos ainda sustentados pela motivação de fazer diferente e de não cair na procrastinação conhecida, na desmotivação cotidiana. O verão, as férias, o carnaval viram ingredientes para trazer uma leveza que, muita das vezes, se perde no avançar das estações. Na esteira desse processo, avançamos pelas semanas e meses transitando entre manter o combinado da mudança conosco e as tentações dos velhos hábitos. No meio dessa conjugação, por vezes delicada e difícil, a saúde mental segue sendo mais exigida do que cuidada.

Não à toa, na aquarela de cores que as campanhas de conscientização trazem para cada mês do ano, coube a janeiro manter o branco, já ovacionado desde o réveillon, para nos alertar sobre a importância dos cuidados à saúde mental. Seja diante de novos planos, ritmos e hábitos desejados, seja na manutenção (ou confrontação) de velhas histórias, enredos e processos, o alerta do início do ano deveria se tornar mantra ao longo dos outros 11 meses que virão.

Todavia, imersos em uma sociedade do desempenho e de alta produtividade, em alusão aos estudos do filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, é importante reconhecermos o risco da lógica da positividade (“você pode tudo”; “pense positivo”) que nos atravessa no cotidiano e que invade nossos projetos de vida.

O sujeito contemporâneo, empreendedor de si mesmo, esgota-se não só porque o trabalho pode se tornar extenuante, mas porque a demanda por manter-se ativo e performando em diferentes áreas da vida nos torna um explorador de nós mesmos. O excesso de exigência assumiu o lugar da repressão do passado nas nossas sociedades, onde o tempo virou um dos bens mais preciosos, motor de um projeto infinito de otimização.

Depressão, ansiedade, pânico e burnout não são apenas questões individuais, mas sintomas de uma época, de um modelo cultural que opera em todos os lugares, desfazendo fronteiras entre as esferas da vida e que nos mantem permanentemente conectados. O risco do colapso vem do excesso de estímulos aos quais somos submetidos e que integramos em nossas vidas.

Nesse contexto, momentos de pausa e reflexão para contemplação e aprendizado com as experiências vividas são facilmente capturados pelo sentimento de culpa e de fracasso. A hiperatividade não deixa espaço para uma escuta mais aprofundada de quem nos tornamos a cada passo do caminho. A cada dia desaprendemos um pouco mais a desacelerar – a mente, o corpo, as emoções, as conexões, as relações – e a sermos e buscarmos espaços de escuta para o que a aceleração, o desempenho constante e a tirania da produtividade querem abafar.

Caberia, portanto, expandirmos a ideia de cuidado à saúde mental como movimento de questionamento da cobrança interna diante de uma sensação de que “continue a nadar” é o que vai nos salvar na sociedade atual, quando, na verdade, essa lógica nos faz, como consequência, perder o fôlego. Que tal, então, reaprendermos a habitar o tempo num ritmo mais respeitoso que integre um tempo de flutuação, entre uma braçada e outra?

Esse é o convite que queremos deixar: entendermos o Janeiro Branco como um chamado à consciência que saúde mental é uma prática individual e política numa vida que precisa valer a pena em sua existência e não apenas em sua produtividade.

Referência:

Han, B.-C. (2015). Sociedade do cansaço (E. P. Giachini, Trad.). Petrópolis, RJ: Vozes.
(Obra original publicada em 2010)

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